Acontecimentos traumáticos e desesperança
Presente, 23 de Novembro de 2017

Patrícia Esperança Lopes
Psicóloga Clínica e da Saúde
Os eventos traumáticos, como a tragédia dos incêndios que afetou o nosso país, deixam marcas profundas, pois, para além das perdas materiais e humanas existem os sobreviventes que presenciaram os acontecimentos e carregam consigo memórias difíceis de ultrapassar.
De facto, estima-se que por cada vitima física existam entre 4 a 10 vitimas a necessitar de intervenção psicológica. Essas podem ser vitimas diretas ou indiretas como os familiares, os profissionais envolvidos no salvamento, ou até indivíduos da própria comunidade expostos repetidamente a imagens violentas que aumentam o sentimento de desamparo e insegurança.
A maioria dos sobreviventes pode evidenciar reações normais de stress como: choque, raiva, culpa, vergonha, desamparo, preocupação, tensão, irritabilidade…. Na maioria das situações estes sintomas são transitórios e as pessoas recuperam sem necessidade de intervenção. Para esta recuperação é importante a perceção de suporte social dado pela comunidade.
Após uma grande catástrofe, como presenciámos no nosso país, multiplicam-se as ações de solidariedade e, apesar das perdas significativas, as zonas mais afetadas recebem recursos materiais e a atenção da comunicação social, criando aos sobreviventes, otimismo e esperança para se reerguerem.
Com o passar do tempo, os recursos e apoios começam a diminuir, tal como a atenção dada aquela comunidade. À medida que os indivíduos se vão confrontando com o incumprimento das promessas politicas, a desresponsabilização das seguradoras e até situações de injustiça, começam a desacreditar, a perder a esperança. Nesta fase, os sobreviventes poderão experienciar sintomas mais severos de stress que podem conduzir a quadros de Stress pós-traumático, perturbações de ansiedade ou depressão.
É importante ter consciência de que as vitimas não são só as imediatas, são também aquelas que poderão surgir a longo prazo e que merecem igualmente a nossa atenção.