Patrícia Esperança Lopes

A criança e o Luto

Diário de Aveiro, 19 de Setembro de 2014

Patrícia Esperança Lopes

Psicóloga Clínica e da Saúde

O luto é um acontecimento normal de vida, pelo qual todos têm que passar em algum momento. As crianças não são exepção. As que passam por esta vivência precisam de conforto, apoio e orientação dos adultos mais significativos, mesmo que esses estejam a lutar com os seus próprios sentimentos de perda.

A forma como as crianças lidam com esta realidade é diferente da dos adultos e varia em função da idade e da sua visão da morte:

  • Até aos 2 anos: A criança não compreende o que é a morte.
  • Entre os 2 e os 5 anos: Não compreende que a morte é algo permanente e que acontece a todos os seres vivos. Vê a morte como reversível e temporária.
  • A partir dos 5 anos: A criança começa a dar-se conta de que a morte é um processo irreversível, no entanto, julga que é possível evitá-la.
  • A partir dos 9 anos: A criança convence-se da inevitabilidade da morte

(estes limites de idade não são estanque, dependem de outros fatores, como por exemplo o nível de desenvolvimento da criança).

Tendo em conta as variações em função da idade, é compreensível que a vivência do luto também seja diferente em particular em relação aos adultos. De forma geral, nas crianças, o processo de luto não é contínuo, visto que a sua capacidade de experienciar emoções intensas é limitada. Assim sendo, poderá verificar-se regressão no seu desenvolvimento, adotando comportamentos de fases anteriores, tomando-se mais infantis e/ou requerendo mais atenção, ou falando situações, o de forma mais mimada. Nestas situações, o adulto deve ser paciente e compreensivo.

Como informar uma criança acerca de uma morte:

  • Deverá ser alguém próximo da criança a dar a notícia e não um estranho. As pessoas mais próximas conhecem melhor a criança e conseguem transmitir-lhe mais segurança.
  • Deve considerar-se o estado emocional de quem dá a notícia, poderá ser necessário a presença de mais alguém que dê suporte.
  • A informação deve ser dada de forma simples, usando vocabulário que a criança compreende e que não seja ambiguo (ex. deve usar-se a palavra morreu e não expressões como “está a dormir”).
  • Deixe a criança exprimir o que sente e fazer perguntas.
  • Responda de forma honesta e simples, mas não entre em detalhes, a não ser que ela questione acerca disso.
  • Se for possível ver o corpo, permita, caso a criança peça, que ela o veja, mas prepare-a para o que ela vai ver.
  • Deixe a criança fazer escolhas sobre o que pretende fazer.

O que se deve ou não dizer a uma criança em luto:

  • Palavras que ajudam:
    • Lamento pela tua mãe/pai..
    • Eu preocupo-me contigo
    • Fala-me acerca da tua mãe/pai
    • Estou aqui para ouvir se quiseres falar
  • Palavras que magoam:
    • Sei o que estás a sentir
    • Vais ultrapassar isto
    • Não chores
    • Tens que ser forte

 

Uma criança deve ir a um funeral?

Deve respeitar-se a vontade da criança e deixar que seja ela a decidir se quer ou não assistir ao funeral.

  • Uma criança que esteja muito assustada com a ideia de ir a um funeral não deve ser forçada a estar presente. Neste caso, pode prepara-se uma homenagem à pessoa falecida, por exemplo, acender uma vela.
  • No caso de a criança querer assistir, deve preparar-se para o que vai ver (pessoas a chorar, como estará o cadáver..).
  • No caso da cremação, deve explicar-se o que se irá passar com o cadáver e assegurar que o falecido(a) já não consegue sentir dor.

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