A importância dos rituais para o restabelecimento dos sobreviventes
Presente, 26 de outubro de 2017

Patrícia Esperança Lopes
Psicóloga Clínica e da Saúde
Os rituais marcam a vida fornecendo estabilidade a um grupo assinalado pela mudança. Eles existem na nossa história há mais de 100 000 anos e têm uma função importante, ajudar na manutenção de laços sociais em altura de crises.
O ritual é uma atividade simbólica realizada antes, durante ou depois de um determinado evento de vida com o objetivo de restabelecer a ordem. Assim sendo, podemos dizer que dá legitimidade e significado a transições de vida, permitindo que pessoas com experiências semelhantes fomeçam e recebam suporte em ocasiões de crise, estabelecendo ligações entre o concreto e o simbólico, o consciente e o não consciente, o participante e a comunidade, dando assim mais sentido ao que vivenciam.
Vários são os rituais que marcam as mais diversas sociedades e a vida humana, no entanto, um dos que pode ser considerado transversal é o ritual fúnebre. Este tende a ser um evento pontual que ajuda as pessoas a lidar com sentimentos contraditórios da experiência humana. Parece contribuir para a redução de ansiedade e estabelecimento de sentimentos de segurança. É ainda mencionado o seu poder de cicatrização ou curativo, visto que potencia a libertação de angústia e o consequente estabelecimento de paz de espirito.
Vários têm sido os estudos a demonstrar os beneficios dos rituais fúnebres, sejam os realizados na ocasião do funeral, sejam os realizados posteriormente (ex. missa do 7° dia, visita do cemitério, dia dos mortos – México).
Por exemplo, Rando (1985) aponta 9 propriedades terapêuticas do ritual: possibilidade de expressão de sentimentos, legitimidade para expressão fisica e emocional da perda, delimitação do luto, legitimidade das alterações emocionais para com o falecido, contexto para processar o luto, validação da perda (choque da realidade), estrutura para afetos confusos, reintegração social e estruturação de aniversários e feriados.
Ainda assim, o tipo de ritual realizado parece assumir importância na expressão emocional e resolução do luto. Por um lado, os rituais esmagadores ou sem significado em termos emocionais dificultam este processo, enquanto aqueles que são avaliados como mais satisfatórios e efetivos estão relacionados com menores niveis de depressão nos enlutados bem como com a diminuição de stress e ansiedade.
Os rituais considerados satisfatórios vêm assim ajudar o enlutado a ser menos analitico e a deixar-se tocar pelos sentimentos dos quais podia não estar consciente antes do funeral, dando um sentido de libertação ou catarse, sendo este um aspeto importante no processo de luto.