Patrícia Esperança Lopes

Rituais e a transformação de ligações simbólicas

Presente, 16 de novembro de 2017

Patrícia Esperança Lopes

Psicóloga Clínica e da Saúde

O ritual fúnebre contribui para moderar, mediar e estabelecer funções no processo de luto, ajudando na transformação, transição de estado e continuação de ligações comuns simbólicas. No entanto, isto não se verifica em todas as situações. 

Nos casos em que se considera que o enlutado viveu com o falecido uma situação de violação de normas sociais (ex. amante, homossexual) os rituais podem não ajudar da mesma maneira e o luto decorrente pode ser patológico, na medida em que a sociedade não permite que se expressem as emoções de forma tão natural, nem se mostra tão disponível para fornecer apoio. Por outro lado, a cultura ocidental moderna, tenta minimizar os rituais de luto em geral e não encoraja a sua expressão após a cerimónia fúnebre (ex. missa do 1º mês da morte…).

Considerando que a parte mais dolorosa do luto ocorre após o funeral, de facto as emoções mais intensas experimentam-se entre o 3° e 24° més após a morte. Assumem especial importância os rituais fúnebres pós cerimónia que podem tomar diversas formas: ver fotos do falecido, ouvir determinada música, acender uma vela, ler ou escrever poesia, recitar preces, recordar o falecido por exemplo durante as refeições ou visitar locais especiais para o falecido.

A este respeito, alguns estudos apontam que as lembranças ou memórias do falecido se mostram mais úteis para a superação do luto do que o aconselhamento profissional, destacando ainda a relevância dos rituais pós funeral. Este tipo de ritual ajuda a transformar, isto é, numa fase em que não podem ser restabelecidos os laços com o falecido, podem ser retrabalhados ou transformados desta forma, criando ainda espaço à organização individual para o estabelecimento de novas ligações.

Também as práticas de carácter religioso oferecem uma oportunidade para estabelecerem uma ligação permanente com o falecido num contexto cultural (ex. aniversário católico).

A perda é inevitável e a maioria dos enlutados resolve o seu luto com a ajuda do suporte social e da comunidade através dos rituais, com a exceção daqueles cujo luto advém de uma relação vista como uma violação de normas sociais, estes tiram pouco partido dos rituais de carácter mais cultural. Também aqueles que vivem uma perda repentina, violenta ou não normativa (ex. morte de crianças) precisam de mais tempo e oportunidade para transformar a relação com o falecido e se adaptar a um mundo transformado. Ainda assim os rituais fúnebres ou pós-funeral podem ajudar a conseguir este equilíbrio.

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